Há alguns anos, dizer que uma empresa de tecnologia havia sido fundada no interior do Nordeste brasileiro soava quase como uma curiosidade. Hoje, esse mesmo fato começa a soar como uma vantagem estratégica. O ecossistema de inovação da região passou por uma transformação silenciosa, mas consistente, ao longo da última década, e os números mais recentes confirmam o que quem vive e trabalha aqui já sentia na prática: o Nordeste virou um polo de tecnologia de verdade.
Este artigo é uma tentativa honesta de entender esse movimento. De onde veio, o que o sustenta, quais são seus limites reais e o que ele significa para quem, como a Grokseat, decidiu construir uma empresa de software a partir desta região.
O Brasil de TI que poucos conhecem
Para entender o que está acontecendo no Nordeste, é preciso primeiro entender o tamanho do mercado em que esse movimento acontece.
Segundo levantamento da ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software) em parceria com a IDC, o Brasil investiu US$ 58,6 bilhões em tecnologia da informação em 2024, um crescimento de 13,9% em relação ao ano anterior, bem acima da média global de 10,8%. O país consolidou sua posição como maior mercado de TI da América Latina, respondendo por 34,7% dos investimentos na região, e manteve a décima posição no ranking mundial de investimentos em TI.
Para 2025, a ABES projetou crescimento de 9,5% para o setor, superando novamente a média global estimada em 8,9%. Os principais vetores desse crescimento são a inteligência artificial generativa, com projetos na casa de US$ 2,4 bilhões e alta de 30%, a digitalização de pequenas e médias empresas e a modernização de infraestruturas de nuvem e segurança cibernética, que deve movimentar US$ 2,1 bilhões. O Brasil possui hoje cerca de 42 mil empresas de software ativas, número que cresceu de 37 mil para 42 mil apenas entre 2023 e 2024.
O Brasil, portanto, não é apenas um mercado relevante no contexto global de tecnologia. É um dos mercados que mais cresce. E o Nordeste é uma parte crescente desse mercado.
A distribuição regional está mudando
A análise regional dos dados da ABES mostra que o Sudeste ainda concentra a maior fatia dos investimentos em TI no país, com 60,8% do total. O Nordeste responde por 11,8%, atrás do Sul (13,9%), mas com um ritmo de crescimento que indica convergência gradual. Andriei Gutierrez, presidente da ABES, destacou que "estamos vendo uma descentralização dos investimentos, com crescimento em regiões além do Sudeste".
O Nordeste como segundo polo nacional de startups
O dado mais significativo sobre o ecossistema nordestino de tecnologia não vem de investimentos diretos em TI, mas do crescimento das startups da região.
O Sebrae Startups Report Brasil 2025, que analisou 22.869 startups mapeadas em todo o país até dezembro de 2025, um crescimento de 26,7% em relação ao ano anterior, revelou que o Nordeste concentra 25,2% das empresas inovadoras do Brasil, consolidando-se como a segunda região do país em número de startups, à frente do Sul (20,3%), Centro-Oeste (9,7%) e Norte (8,8%). O Sudeste segue na liderança com 36%.
Esse não é um resultado estático. É o reflexo de um crescimento acelerado: em 2023, havia 11.336 startups mapeadas no Brasil. Em 2024, 18.056. Em 2025, 22.869. O Nordeste cresceu proporcionalmente acima da média nacional em todos esses períodos, dobrando sua base de empresas inovadoras em apenas dois anos.
Em 2025, o Sebrae realizou 93.288 atendimentos a startups em todo o Brasil, crescimento de 17,2% em relação ao ano anterior, e o Nordeste foi a região que mais demandou orientação sobre gestão da inovação.
"O Nordeste é o segundo polo de startups do Brasil. Isso mostra o potencial que é a região. O crescimento dos estados da região supera o do PIB nacional", afirmou Décio Lima, presidente do Sebrae, ao comentar os dados do relatório.
Pernambuco lidera o crescimento percentual nacional
No recorte estadual, Pernambuco registrou alta de 72,2% no número de startups em 2025, o maior crescimento percentual entre todos os estados brasileiros analisados. O estado aparece em quinto lugar no ranking nacional absoluto, com 1.188 negócios mapeados, respondendo por 5,2% do volume total do país.
No ranking municipal, Recife soma 640 startups com crescimento de 46,1%, o maior avanço entre as dez principais capitais. Fortaleza reúne 571 empresas com alta de 40,6%. Teresina aparece entre as dez cidades com maior número absoluto de startups do país, com 440 empresas e crescimento de 19,2%.
Esses números colocam capitais nordestinas em companhia de São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis e Belo Horizonte no ranking das cidades que mais concentram inovação no país, confirmando o que o Sebrae chama de "amadurecimento do modelo multi-hub, no qual diferentes regiões passam a desenvolver especializações próprias."
O perfil das startups nordestinas
Mais de 70% das startups mapeadas pelo Sebrae em todo o Brasil operam nos modelos B2B ou B2B2C, e o Nordeste segue essa tendência. As áreas de tecnologia da informação, saúde e educação concentram um terço das startups nordestinas. Entre as tecnologias mais adotadas estão inteligência artificial (51,8% das startups brasileiras já declaram usá-la), computação em nuvem (22,6%) e APIs (26,7%).
Porto Digital: o modelo que mostrou que era possível
Nenhuma análise do ecossistema de tecnologia nordestino pode ignorar o Porto Digital. Fundado em 2000 no centro histórico do Recife, o parque tecnológico se tornou o maior distrito de inovação urbano e aberto do Brasil e uma referência em governança público-privada para ambientes de inovação no mundo.
O que começou como uma aposta de engenheiros, gestores públicos e pesquisadores da UFPE para reter talentos que estavam migrando para São Paulo e para o exterior se transformou em um dos ecossistemas tecnológicos mais reconhecidos da América Latina. Hoje, o Porto Digital reúne mais de 475 empresas e instituições em seu território, gerando mais de 21 mil postos de trabalho diretos e faturamento na casa de bilhões de reais ao ano.
O índice de sobrevivência das empresas do Porto Digital é de 70%, contra uma taxa de mortalidade de 49,4% para empresas de tecnologia com menos de dois anos no Brasil como um todo. Esse número não é coincidência: é resultado de um ecossistema que oferece infraestrutura, conexões, mentoria e acesso a mercado desde os primeiros dias de uma empresa.
Além do impacto econômico, o Porto Digital demonstrou que a interiorização da inovação é possível: desde 2017 opera um hub em Caruaru, no Agreste pernambucano. Em 2024, inaugurou uma unidade internacional em Aveiro, Portugal, voltada para a conexão com o mercado europeu.
O que o Porto Digital ensina para outras cidades
O sucesso do Porto Digital gerou um debate importante sobre como outros estados e cidades nordestinas podem construir seus próprios ecossistemas de inovação. Silvio Meira, um dos criadores do Porto Digital, foi direto ao ponto ao ser questionado sobre como Alagoas poderia desenvolver seu polo de tecnologia:
"Qualquer novo polo econômico ou tecnológico não surge no vácuo ou por geração espontânea. O essencial não é a tecnologia em si. O essencial é ter uma boa estratégia e gente de qualidade trabalhando e convivendo num mesmo espaço, criando novos negócios e pensando grande, ainda que os recursos sejam escassos."
A fala de Meira resume uma das lições mais importantes do Porto Digital: o ecossistema não é construído por decreto, por prédios ou por recursos financeiros isolados. É construído por pessoas que decidem permanecer, investir e criar onde estão.
Fortaleza e o crescimento do Ceará
Enquanto Recife consolidou sua posição como polo nacional de inovação, Fortaleza emerge como a segunda grande força tecnológica do Nordeste. O Ceará abriga quatro Centros de Inovação e nove Centros de Referência, distribuídos por todo o estado, promovendo parcerias entre universidades, startups e grandes empresas.
O Siará Tech Summit, organizado pelo Sebrae Ceará, reuniu cerca de 18.000 inscritos em sua edição de 2024, com 300 startups cearenses apresentando seus negócios a investidores. O evento é um sinal concreto da maturidade do ecossistema local: não apenas há mais empresas, mas há estrutura de eventos, capital e conexões para que essas empresas cresçam.
"Estamos construindo uma rede que envolve todas as instituições tecnológicas e empresas locais, criando um ambiente de colaboração que fortalece nosso ecossistema de inovação", afirmou Herbart Melo, articulador da Unidade de Gestão dos Ambientes de Inovação do Sebrae/CE.
O desafio que ninguém consegue ignorar: falta de profissionais
Seria ingênuo escrever um artigo sobre o ecossistema de tecnologia nordestino sem mencionar o maior obstáculo ao crescimento do setor no Brasil inteiro: a escassez de profissionais qualificados.
Segundo levantamento da Brasscom, o Brasil acumulou um déficit de 530 mil profissionais de TI entre 2021 e 2025. O país formou cerca de 53 mil profissionais de tecnologia por ano nesse período, mas a demanda do mercado foi de aproximadamente 159 mil por ano. De 2019 a 2024, surgiram 665 mil novas vagas em tecnologia, mas apenas 464 mil profissionais qualificados entraram no mercado, um déficit estrutural de 30,2% entre demanda e oferta.
Para 2025, a Brasscom projeta a criação de 88 mil novos empregos formais no macrossetor de TIC em seu cenário base, chegando a 147 mil no cenário otimista. As profissões mais demandadas são Desenvolvedor Back-end, Gerente de TI, Analista e Cientista de Dados, e Especialista em IA e Machine Learning.
A pesquisa de Escassez de Talentos 2025 da ManpowerGroup, realizada com mais de 40 mil empregadores em 42 países, aponta que 81% das empresas brasileiras relatam dificuldade para encontrar os talentos de que precisam, com TI e Dados sendo a área de maior escassez, com lacuna de 39%.
O levantamento do Google for Startups em parceria com a Abstartups reforça esse cenário: 92% das startups participantes acreditam que a falta de profissionais de tecnologia gera impacto direto na inovação de seus negócios, podendo até comprometer a sobrevivência das empresas. Apenas 7% das startups consideram que possuem todas as competências profissionais necessárias em seus times.
No Nordeste, o problema é amplificado pela concentração geográfica
No contexto nordestino, a escassez de talentos tem uma camada adicional de complexidade. A maioria dos profissionais qualificados e das oportunidades se concentra nas capitais, especialmente Recife e Fortaleza. Cidades do interior, mesmo as de médio porte com universidades federais e estaduais, enfrentam dificuldades tanto para reter talentos formados localmente quanto para atrair profissionais de fora.
O problema não é exclusivo do Nordeste, mas é mais agudo aqui do que nas regiões Sul e Sudeste, onde a densidade de empresas e universidades tecnológicas cria uma rede de suporte mais robusta para o desenvolvimento e retenção de talentos.
Esse cenário cria uma oportunidade paradoxal para empresas dispostas a investir em formação local: em mercados onde o talento é escasso, quem forma e retém pessoas tem uma vantagem competitiva que vai muito além do produto ou serviço que entrega.
Por que empreender em tecnologia no Nordeste faz sentido
Diante desse panorama, uma pergunta legítima é: por que fundar uma empresa de tecnologia no Nordeste em vez de se instalar em São Paulo, Florianópolis ou Curitiba, onde o ecossistema é mais denso e o acesso a capital, clientes e talentos é mais fácil?
A resposta não é simples, mas é mais consistente do que parece.
O custo operacional é menor. Alugar espaço, contratar pessoas e manter uma operação no Nordeste custa significativamente menos do que nos grandes centros do Sul e Sudeste. Para empresas de software, onde o principal ativo é humano e o trabalho pode ser feito remotamente, essa diferença de custo se traduz diretamente em maior margem ou maior capacidade de investimento em crescimento.
O mercado local é grande e mal atendido. O Brasil tem mais de 20 milhões de micro e pequenas empresas, e uma parcela expressiva está no Nordeste. A grande maioria dessas empresas ainda opera com processos analógicos ou com sistemas obsoletos. O espaço para criar valor aqui é enorme, e as empresas locais têm uma vantagem natural: entendem a realidade dos clientes que atendem porque vivem nela.
A competição por talentos é diferente. Nos grandes centros, disputar desenvolvedores com Google, Nubank, Mercado Livre e dezenas de fintechs e consultorias globais é uma batalha quase impossível para empresas pequenas. No Nordeste, essa disputa existe, mas em escala diferente. Há espaço para construir times comprometidos com projetos que façam sentido para a realidade local.
O trabalho remoto nivelou o campo. Com o avanço do trabalho remoto como norma na indústria de software, a distância geográfica perdeu muito de seu peso como desvantagem. Uma empresa de Arapiraca pode atender clientes em São Paulo, contratar talentos em Fortaleza e competir com empresas de qualquer lugar do Brasil no mesmo patamar técnico.
O que ainda precisa avançar
Honestidade exige reconhecer o que ainda falta.
O ecossistema nordestino de inovação é mais forte nas capitais do que no interior. Cidades como Arapiraca, Feira de Santana, Campina Grande e Mossoró têm universidades federais e estaduais que formam profissionais de tecnologia, mas a infraestrutura de apoio ao empreendedorismo tecnológico ainda é incipiente em comparação com Recife e Fortaleza.
O acesso a capital de risco é limitado. Investidores-anjo, fundos de venture capital e aceleradoras estão concentrados no Sudeste e, em escala menor, no Recife. Para uma startup em Alagoas ou Piauí, acessar esse capital exige uma jornada mais longa e menos óbvia do que para uma startup na Vila Madalena.
A infraestrutura digital ainda tem lacunas. A conectividade de qualidade melhorou muito na última década, mas ainda existem pontos de fragilidade em cidades menores que precisam ser resolvidos para que o interior nordestino possa se desenvolver de forma mais equilibrada.
E a cultura de risco ainda está se desenvolvendo. Empreender em tecnologia envolve aceitar incerteza, testar ideias que podem não funcionar e persistir além dos primeiros obstáculos. Essa mentalidade está crescendo no Nordeste, mas ainda encontra resistências culturais e familiares mais intensas do que nos centros tradicionais de inovação do país.
O que a Grokseat vê nesse contexto
A Grokseat foi fundada em Arapiraca, no interior de Alagoas, em 2025. Não foi uma decisão de falta de opções. Foi uma escolha deliberada sobre onde criar valor e para quem.
Vemos diariamente a demanda reprimida por tecnologia de qualidade entre pequenos negócios da região. Vemos profissionais talentosos formados nas universidades locais que muitas vezes precisam sair para encontrar oportunidades à altura do que são capazes. Vemos uma janela de tempo em que empresas dispostas a investir localmente têm uma vantagem de posicionamento que dificilmente existirá daqui a dez anos, quando o mercado estiver mais consolidado.
O Nordeste não precisa ser uma cópia do Vale do Silício, nem do Recife, nem de São Paulo. Precisa desenvolver seu próprio modelo, baseado nas suas forças reais: uma população jovem, um mercado interno enorme e mal digitalizado, custos operacionais competitivos e uma identidade cultural que, quando traduzida em cultura de empresa, cria equipes com coesão e comprometimento que grandes centros muitas vezes têm dificuldade de replicar.
O mapa da tecnologia brasileira está se redesenhando. Quem estiver construindo agora, no interior nordestino, vai colher resultados que quem esperar o ecossistema ficar pronto não terá como alcançar.
Fontes consultadas para este artigo:
- ABES / IDC - Mercado Brasileiro de Software: Panorama e Tendências 2025
- Brasscom - Relatório de Perspectivas do Mercado de Trabalho do Macrossetor TIC (fevereiro de 2025)
- Brasscom - Estudo "Demanda de Talentos em TIC e Estratégia ΣTCEM"
- Sebrae - Startups Report Brasil 2025 (Observatório Sebrae Startups)
- Google for Startups / Abstartups - Panorama de Talentos em Tecnologia
- ManpowerGroup - Pesquisa de Escassez de Talentos 2025
- Porto Digital - Dados institucionais e relatórios públicos
- Agência Sebrae de Notícias (PE) - Pernambuco lidera crescimento de startups no Brasil (2026)
- Agência Sebrae de Notícias (CE) - Startups no Nordeste dobram em dois anos (2026)
- Agenda A - O que o Polo de Tecnologia de AL pode aprender com o Porto Digital? Silvio Meira explica